Aviões, janelas e tecnologia


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Há dias, em conversa circunstancial, dizia-me alguém que o que mais o irrita, nos voos que quinzenalmente faz em trabalho, é a obrigação de manter a cortina da janela do avião aberta durante a descolagem e aterragem. E acrescentava que esta só poderia ser uma regra estúpida e inútil, alem de irritante, para quem tenta aproveitar o voo para pôr em dia o descanso atrasado!

Acontece que, ainda que possa ser irritante, não é nem inútil, nem estúpido! Tal imposição acontece exclusivamente por razões de segurança pura e dura, sem mais. E vejamos porquê…

Todos sabemos ou, pelo menos, temos essa ideia, que a descolagem e aterragem são dois dos mais críticos e exigentes momentos de qualquer voo numa aeronave, seja num voo militar, de lazer ou comercial. É são também aqueles em que maior é o risco de algo correr mal, de um acidente acontecer, ou de uma qualquer falha, seja ela técnica ou humana, levar a procedimentos de emergência, nomeadamente a evacuação rápida da aeronave. E as estatísticas confirmam isso mesmo.

Ora, por exigência dos rigorosos regulamentos dos voos comerciais, a tripulação tem que ser capaz de o fazer nuns estritos 90 segundos. Para isso ser possível, prova a experiência, é importante que toda a tripulação esteja alerta nesses momentos críticos mas, acima de tudo, mantenha o sentido de orientação, bem como a completa percepção do meio ambiente envolvente, da localização dos possíveis riscos existentes (incêndio ou fogo, fumos, fugas de fluidos, incluindo combustível, existência de água ou acidentes de terreno, etc. Ainda mais importante, prova-se que em tais situações de emergência é muito menos provável que se instale o pânico entre passageiros quando estes mantém o contacto com o mundo exterior, a percepção da envolvente e de toda a situação, bem como o mais completo sentido de orientação espacial e temporal. E isto só possível com um campo de visão desimpedido para o mundo circundante, e com o afastamento de todas as barreiras que possam levar ao isolamento de cada um, dentro do ambiente limitado que é o interior de um avião.

A própria psicologia sabe-o e sublinha-o, nesta e em todas as restantes situações (mesmo quando não são de emergência), apontando, por exemplo, a alteração de várias capacidades cognitivas, perceptivas ou de reacção, de qualquer sujeito submetido a experiências de isolamento total ou parcial de um ou mais sentidos. E tal é verdade mesmo quando a experiência não é de isolamento, mas apenas de alteração das percepções por um qualquer processo artificial.

Acontece que, para o sabermos, nem sequer seria necessário a psicologia apontar tal facto, pois já todos passámos por experiências comuns que nos provam precisamente esta característica e limitação do ser humano como, por exemplo, a alteração do foco e da atenção quando usamos auscultadores com musica ou quando estamos frente a um ecrã, de um qualquer dispositivo electrónico, seja um computador, um smartphone, um televisor ou um tablet, ou mesmo a dificuldade existente em integrarmos o mundo que nos rodeia após uma experiência de cinema ou televisão 3D, ou a uma audição sonora em ambiente electronicamente alterado.

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Este exemplo da aviação comercial, sujeita a estritas regras de segurança, a regulamentos que rapidamente contemplam e incorporam tudo o que a experiência acumulada em cada acidente, em cada caso, em cada ocorrência, de relevante se detecta parece, no entanto, ser ostensivamente ignorada noutras áreas da actividade humana e do desenvolvimento tecnológico. E para o provar, peguemos apenas em dois exemplos paradigmáticos. O primeiro é a incorporação das tecnologias digitais multimédia, de realidade virtual ou de realidade aumentada, e mesmo de inteligência artificial, na industria, e o segundo é a sua incorporação em veículos automóveis.

E se em ambos os casos se a tecnologia incorporada é capaz de ser facilitadora, e um eficaz suporte extra à actividade, por outro lado, é também necessário a consciencialização de que é potencialmente capaz de alterar os estados de consciência, atenção e concentração, sem aviso prévio e sem que tenha sido produzido previamente um estudo verdadeiramente profundo dessa possibilidade e dos seus potenciais efeito. Mesmo no caso da industria automóvel em que estas tecnologias são cada vez mais omnipresentes… e principalmente nesta.

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Tememos apenas que os factores humanos estejam a ser pouco considerados.
Apenas issso.

Blog Ask The Pilot

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