O pensamento criativo caracteriza-se por chegar a resultados inteiramente novos, não convencionais, para uma dada questão ou problema. Mas o processo começa antes. De facto muito antes!

O processo começa na capacidade de olhar para a questão ou problema de forma completamente desligada das abordagens previsiveis, vendo apenas o problema e não as soluções convencionais. E, depois, de ser capaz de o entender de forma completamente desligada de visões do senso comum ou de preconceitos. E finalmente de usar todos os conhecimentos e capacidade intelectual para encontrar uma solução… mesmo que essa solução pareça estranha, pouco usual, ou impossivel.

A maioria das pessoas raramente é capaz de o fazer. Pensamos por parâmetros de senso comum, classificamos as questões segundo regras aprendidas, como se as colocássemos em caixas pré-existentes, independentemente de terem sido criadas para essas questões ou não, e só assim nos sentimos confortáveis. E depois encontramos soluções usuais, capazes de serem aceites pelos outros como boas. Boas, pelo menos aparentemente… porque necessitamos de reconhecimento, e convivemos mal com o questionamento que terceiros poderiam fazer dos nossos pensamentos.

É por isso que maioritáriamente somos não criativos na maior parte do tempo. Mas há pessoas que não são assim e comportam-se geralmente como criativas. Surpreendem-nos, obtém resultados que nos fazem exclamar de espanto, criam…  Porquê? Aqui estão 10 razões. Não serão as únicas. Mas aquelas que se provam mais comuns e mais limitadoras ou libertadoras.

1. Tentamos encontrar a resposta “CERTA”

Um dos principais defeitos da educação formal passa pelo processo de interiorização de que para uma questão existe apenas uma resposta correcta: a que aprendemos. Ainda que isso nos facilite a vida em sociedade, também mata a criatividade. E de facto na maior parte dos casos, as situações que se nos colocam são ambiguas e nem sequer têm uma única respossta certa… Geralmente não temos todos os dados, nem eles interessam, e geralmente qualquer situação admite muitas variantes, e todas poderiam ser soluções. Poderá haver geralmente mais que uma solução, mas escolheremos sempre aquela que nos parece “a correcta”. Mesmo que não seja… geralmente existem variadas alternativas, mas o preconceito não nos permitirá sequer considerá-las.

A primeira questão que se coloca para ser criativo é, portanto nunca admitir como correcta uma solução, sem examinar pormenorizada e desapaixonadamente todas as outras que nos ocorram, mesmo que possamos prever que não seria a mais preconizada e aceite por quem nos rodeia. Analisem-se as questões sob vários pontos de vista, mesmo os menos obvios, e encontrem-se as variadas soluções possiveis, mesmo que sejam incomuns. Não se escolha nunca a mais obvia sem pelo menos a considerar em pé de igualdade com qualquer outra que surja.

2. O pensamento Lógico

O pensamento lógico, ainda que informalmente, domina-nos no dia a dia, em cada hora. Muitas das decisões são tomadas porque a opção escolhida não exige discussão e defesa uma vez que é “lógica”. No entanto muitas das situações que tentamos resolver com soluções lógicas são elas próprias, além de ambiguas, ilógicas, no sentido de que são tantas vezes dificilmente justificáveis e/ou explicáveis, ou ainda no sentido de que não há qualquer tipo de lógica formal que se lhes possa aplicar. porque escolhemos uma cor em detrimento de outra? Que lógica se aplica a esta escolha. Aquilo a que chamamos lógica, não passa muitas vezes de preconceito. Escolhemos a cor que não exigirá explicações e justificações.

Libertemo-nos portanto de soluções lógicas. Consideremos também aquelas que poderiam ser consideradas “ilógicas”. Abordemos as questões como elas próprias são: ilógicas e ambiguas, e não tentemos aplicar-lhes soluções ditas lógicas. Consideremos as restantes, todas elas, mesmo aquelas que ninguém estaria à espera que fossem consideradas… Uma das formas de pensamento “ilógico” é o pensamento metafórico: substitua-se o problema por uma metáfora dele próprio. Encontrem-se soluções, como metáforas das soluções para os problemas reais e transponha-se, revertendo a metáfora. Este é um processo usado por grandes pensadores, por arquitectos ou por artistas. E muitas vezes a solução acaba por ser ela própria uma solução quase metafórica, mas por isso mesmo criativa. O ser humano pensa melhor quando usa símbolos. A metáfora de um problema cria simbolos para o representar, mas liberta-nos das amarras que são indissociáveis dos problemas em si.

3. Seguimos Regras

A maioria de nós está treinado para seguir regras que outros criaram, e que apesar disso nos facilitam a vida em sociedade. Mas seguindo regras apenas se reproduzem comportamentos, logo também soluções.

Veja o processo criativo como um processo de ruptura de regras! Como uma força destrutiva. Conscencialize-se das regras que aplicaria. E afaste-se completamente delas! Destrua-as mentalmentalmente. O porcesso criativo exige que não resolva as questões pelos caminhos e regras que os outros usam, por isso destrua-os e pergunte-se sempre porquê e como? Vai precisar de treinar esta destruição das regras, porque é mais fácil de dizer que de fazer. E só há uma maneira. Conscientemente recuse e destrua as regras quando quer tornar-se criativo.

4. Necessidade de Ser Prático

Tal como a necessidade de ser lógico, a necessidade de ser prático mata a criatividade. Ninguém é criativo se pretender aplicar o minimo esforço possivel. Ser criativo exige disponibilidade, entrega, e a maior parte das vezes trabalho árduo. O processo criativo é demorado. Não tente ser criativo se quer resultados em 5 minutos. Para ser criativo dê tempo ao tempo, pare os relógios e liberte-se da mania de que a soluç~eo tem que ser realizável por aquilo que conhece! Não tem! Mas nem sequer pense nisso! Muitas vezes a criatividade obriga a procurar posteriormente processos para a realizar. Mas se criatividade é encontrar soluções novas, certamente que não estaria à espera de as encontrar já com os processos de realização pensados, pois não? Ser criativo é não pensar na realizabilidade da solução. Isso é irrelevante e fica para depois!!!

Simplesmente não avalia a realizabilidade das ideias na fase de concepção. Coloque-se repetidamente a questão “…e se…” e enverede decididamente por todos os caminhos que se lhe deparem, explore-os e embrenhe-se neles. A realizabilidade é assunto para depois. E freqentemente encontrará excelentes ideias que apesar de serem tão obviamente práticas, nunca ninguém as tinha tido!!!

5. A Ideia de que trabalhar não é brincar

A maioria das pessoas está presa a este conceito: enquanto trabalho não posso estar a divertir-me. Pois para ser criativo é precisamente o contrário! Brinque, explore, tente e erre e tente de novo. Afaste as soluções preconizadas, ensaie todas as outras. Mesmo as obviamente estupidas, para perceber porquê, para encontrar alternativas. Divirta-se com as soluções mais ridiculas, reconverta-as, refaça-as. Brinque com o problema!!!

Pois ser criativo é brincar. Pensar de forma lúdica, explorar, divertir-se com as multiplas soluções. Convença-se de que para um criativo, contra o pensamento comum, trabalhar e brincar com as ideias e soluções é precisamente a mesma coisa.

6. Isso não é a minha especialidade!

Num mundo super especializado é fácil ficarmos fechados na àrea da nossa especialização e ignorar todo o resto. A nossa visão do mundo é filtrado pelos óculos das nossas competências. A maioria das pessoas reduz-se a ter uma visão particular e deturpada do mundo, porque acha que o mundo roda segundo as regras que da sua especialização. São as pessoas que alegremente sentem curiosidade por àreas de conhecimento completamente não relacionado com as suas especializações, e com isso se divertem e enriquecem, que entendem e percebem que afinal tudo está relacionado, e o mundo é muito mais colorido do que poderia pensar quem o vê por um unico prisma. Um criativo geralmente é um curioso e quer saber de tudo, diga-lhe ou não respeito! E diverte-se com isso!

Claro que é necessário especializarmo-nos num campo de trabalho, mas se nos encararmos mais como exploradores deste mundo do que como maquinaria altamente especializada, rápidamente percebemos de forma muito mais plena o mundo, os outros e a mente abrir-se-á na experimentação, na curiosidade, na inovação e criatividade…

7. Somos pessoas sérias

Muito do que nos mantém seres civilizados passa pelo conformismo, o cumprimento de regras e a adesão a valores comuns, pensando sobre os assuntos como as outras pessoas, tendo a mesma opinião, identificando-nos com ideias partilhadas. É isso que nos torna pessoas civilizadas, sérias e confiáveis. Não há nada de errado com isso, desde que tenhamos a consciência de que seguimos cegamente certas ideias, soluções e regras… e sejamos capazes de desligar essa faceta quando queremos ser criativos!

Ser criativo passa por esquecer o ser sério: liberte-se de todas as regras e de todas as ideias feitas ou soluções comuns. Esqueça se o que vai pensar é blasfémia, ofensa, transgressão. Liberte-se completamente de cadeias e deixe a imaginação e o pensamento fluir livremente, Terá tempo para pensar nas regras mais tarde. Mas não seja convencional quando quer ser criativo. Desejos, sonhos, imaginação, oposição ao senso comum, contestação, incómodo, ideosincrazias, manias… liberte tudo e deixe correr livremente, independentemente de ser ou não aceite pela sociedade e pelo senso comum. Só assim será criativo. Convença-se que criar é romper com o que é aceite e fazer diferente. Dê a si próprio permissão para ser tolo e fazer as coisas como elas mais o divertirem.

8. Evitar a ambiguidade

Racionalmente percebemos que a maioria das situações e problemas são ambiguos. E geralmente, mesmo que saibamos que isso conduz em ultima instância ao desatre garantido, ignoramos essa ambiguidade deliberadamente, e pretendemos mesmo assim dividir os problemas indefinidos em partes mais elementares (mesmo quando não é possivel), classificamos em unidades conhecidas, em caixas pretas e brancas, em bem e mal, em positivo e negativo…  É esta uma das caracteristicas inatas do ser humano, e que até certo ponto lhe facilita lidar com o mundo ambiguo. Mas o criativo rejeita completamente este conforto falso, quando ele é inapropriado, e lida com as ambiguidades, evita as classificações e as sentenças definitivas, procura os duplos significados, as indefinições, embrenha-se nos caminhos do inclassificável, do desordenado, do incompleto, do dúbio e do desconhecido e aí encontra soluções.

A ambiguidade e o desconhecido são os melhores amigos do criativo. O facto de muita gente evitar o desconforto da ambiguidade e da indefinição, dá ao criativo uma ferramenta única para explorar os caminhos desconhecidos e os caminhos da sua inventividade, uma vez que seja capaz de abraçar a ambiguidade, em vez de fugir dela. Coloque tudo em pé de igualdade até começar a escolher.

9. Estar errado, é negativo

Todos odiamos estar errados e cometer erros. Mas Thomas Edison cometeu 1,800 erros antes de chegar à lampada electrica. A melhor qualidade de Edison terá sido não ter qualquer medo de estar errado e por isso prosseguir tentando e procurando. Para quem não sabe lidar com o risco de errar, o caminho da criatividade estará fechado. Criar é correr o risco de criar errado.

A melhor capacidade de um criativo é a de não ter medo de errar, e tentar mesmo os caminhos em que sabe que pode existir risco de erro. Quando vislumbra um caminho que possa conduzir a um risco de erro, mentalize-se que de que é precisamente por tentar e errar, e aprender com os erros que pode criar e inovar. Pergunte a si próprio o que é o pior que pode acontecer! Fácilmente chegará à conclusão de que vale a pena tentar e experimentar, mesmo que exista o risco de errar.

10. Não sou um criativo

Pois não: não será enquanto estiver convencido disso. Leia os outros nove pontos e interiorize-o: assim você saberá ser criativo quando quiser, desde que assuma esse papel. Pare de dizer que não é criativo, e deixará de se limitar a si próprio!

Tal como os que consideramos iluminados espiritualmente, ser criativo passa antes de tudo por abrir a mente, convencer-se de que qualquer ser humano, que se liberte de regras e amarras que o prendem, poderá ser criativo. Agora inicie a viagem da experimentação, da tentativa erro, do pensamento out the box, de pensar de forma não convencional, de arriscar, de assumir o risco do erro, e de derrubar as restantes barreiras aqui descritas. Comece a ser criativo na sua mente! Esse é o único lugar onde se é criativo!

Referência


 
A Whack on the Side of the Head:
How You Can Be More Creative
,
Roger von Oech
(presidente da empresa de consultoria Creative Think)