[criatividade+-+hemisférios.gif]O artigo tem um nome que diria ingénuo e quase ridículo, mas o conteúdo é soberbo! “De onde vem a criatividade?” ou, diria…  o que é, e como funciona a criatividade?

O artigo é de Sérgio Navega, conferencista brasileiro. O interessante é que de uma forma ligeira e até pouco cientifica os pontos chave sobre a criatividade são tocados um por um.

E se a problemática da formatação precoce do pensamento (educação, instrução…), da prisão que cada um tem às ideias feitas ou aos processos comuns de raciocinio (formatação, comodismo intelectual, convencionalismo, medo da experiencia, preocupação com a integração, preocupações éticas impositivas, a moral comum), ou a busca activa, necessidade e até hábito/vicio do recurso às soluções de “bom senso” ou de “senso comum” (pela fobia da exposição, do ridiculo, a insegurança do experimentalismo) são para quase todos todos aceites como factores claros de bloqueio da capacidade criativa, já algumas outras ideias, positivas na definição do processo criativo, são menos comuns e, no entanto, extremamente interessantes. Neste artigo, algumas delas são expostas de forma deliciosamente simples (quase simplista, em alguns casos).

E falo por exemplo da ideia de que “criar é ter inteligência para simular” (e eu diria que “inteligencia é ter a simulação como processo de pensamento e a capacidade critica de selecção, como filtro”, mas isso é outro assunto, já que inteligência é uma palavra umbrella, e associa um campo vasto, nem sempre claramente delimitado, de conceitos!).

É que, de facto, a simulação, a experimentação, o ensaio, a geração sistemática de modelos alternativos para para simulação, como processo de pensamento, mesmo quando em formato de tentativa, em erro, é o cerne do processo criativo, mesmo quando não cognitivo. E a própria inteligencia emocional, é em muitos casos, ela própria, um processo de tentativa e avaliação (emocional, nesse caso), ou seja de simulação metodológica.

E este pensamento pela simulação, nada mais é que outra expressão, mais rica, mais abrangente e intuitiva, do conceito de pensamento lateral ou divergente (ou lateral thinking), de  Edward de Bono, e mais profunda  e abrangente do que o conceitos de design thinking e outside the box thinking (por oposição ao pensamento vertical, pensamento analitico e ao pensamento convencional). E para maior aprofundamento, veja-se sobre o assunto O Pensamento Criativo em Design.

É pela simulação sistemática, desprendida de constrangimentos, pela exploração mental (emocional, racional,…) das alternativas não convencionais, e simulação dos seus resultados prováveis, dos seus efeitos e/ouconsequências previsiveis, das suas implicações, avaliação e valoração sistemática das vantagens e desvantagens associadas, que o processo de pensamento se torna não apenas reprodutor de soluções anteriores, mas sim um processo realmente criativo, ou seja, capaz de trilhar novos caminhos não convencionais. E é esse provávelmente o aspecto menos compreendido do processo de pensamento criativo, e do comportamento criativo.

Quantas vezes esse experimentalismo (inerente ao processo de pensamento por simulação) é confundido com rebeldia ou simplesmente com excentricidade. E essa é, claro está, a interpretação convencional, e portanto não criativa. Por outro lado quanto vezes a simples rebeldia (comportamento por oposição a…) ou excentricidade (ausência de adesão ou reconhecimento do convencional), são eles proprios conceitos confundidos com criatividade, quando o não são, de todo.

É que “pertencer” a uma “tribo” (excentrica, rebelde, etc.) é pela própria significação de pertencer (no sentido de que é a adopção de padrões externos, colectivos e convencionais, portanto) ser não criativo, ainda que possa ser rebeldia, ainda que possa ser experimentalismo; ou exactamente o oposto, já que o pertencer pode ser tão só o abdicar de (ou secundarizar)  opinião própria, o omitir a capacidade de pensamento autónomo e individual, o abdicar e/ou omitir a capacidade de ser, sem integração no grupo (pensamento padronizado, senso comum, convencionalismo).  

E ser excentrico, pode ser (nem sempre, mas lembro-me de poucos casos) pouco mais  que ausência total de compreensão do que nos rodeia (inadaptação) e, portanto da capacidade de criar ou adoptar padrões de integração e de senso comum, de forma genérica e generalizada (e isso nenhuma relação tem com criatividade). Ok, Dali será excepção… mas nem tanto.

A criatividade (pelo menos aquela que interessa, ou aquela que é “efectivamente criativa”) é bastante cirúrgica, dirigida, sistemática, face a objectivos conscientes e ou pelo menos enunciados e identificados, e seria inútil se difusa, absolutamente generalizada a toda e qualquer actividade cognitiva, emocional e/ou comportamental  (aí sim excentricidade, quase loucura…). Criar é encontrar uma nova solução/abordagem/realização para algo (objectivo determinado). 

E se bem que nem todos tenhamos desenferrujadas as ferramentas mentais para isso, essa criatividade treina-se, como se treina tão fácilmente a “não criatividade”, a acomodação e o convencionalismo… ao fim e ao cabo o “senso comum”, inimigo da criatividade. E tão bem que a escola o tem feito, treinando mentes para a fábrica, desde a revolução industrial… está agora em tempo de treinar paraa criatividade.

É que num tempo em que se repensa a escola, a formação e a qualificação profissional, enquanto  (pelo menos até agora) formatadora de personalidades, comportamentos e processos de integração, pensamento, raciocinio, e abordagens convencionais para os problemas, poderia agora acabar-se com aquela nesse formato, terminada que está a economia industrial no nosso mundo ocidental, baseada em mão de obra, formatada, uniforme, cumpridora, convencional.

E daí renasceria uma escola estimuladora de pensamento criativo, da criação individual e colectiva de inovação e mais valia pela invenção, de criatividade, ou simplesmente recompensando o experimentalismo, o ensaio, a tentativa, a analogia, variada e omnipresente, ou uma inteligência baseada na capacidade de supor e simular, base da criatividade. Recompensar-se-ia portanto capacidade de pensar, e pensar simulando… Afinal, recompensar mais a atitude de “E se…?”, com as suas consequencias,  do que a atitude do “…porque…!” 

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Referência
artigo De onde vem a criatividade?, de Sérgio Navega
artigo O Pensamento Criativo em Design, Reflexões acerca da formação do designer, de Katja Tschimmel

Outros
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