O processo criativo, desenvolvido de uma forma profissional é, na sua essência, um processo que exige em simultâneo uma excelente capacidade de compreensão dos problemas e das soluções convencionais para eles, e a capacidade de os olhar como se de um problema inteiramente novo se tratasse, libertando-se dos processos de solução conhecidos e convencionais, e trilhando de forma autónoma novos caminhos de solução, sem no entanto esquecer o saber acumulado nas anteriores tentativas de solução.

É como se tendo que trilhar o caminho até à cidade mais próxima, o criativo ignorasse deliberadamente estradas e caminhos, e decidisse traçar a sua própria estrada, ainda que não ignorando as razões que levaram a que cada uma das estradas percorresse um caminho especifíco e não outro (as razões do terreno e do relevo, da facilidade construtiva, da orientação, do percurso que servem, da lógica empirica de quem a traçou, as razões técnicas, os materiais, etc.) usando em proveito do seu processo essas experiências e conhecimentos sem, de qualquer modo, os seguir cegamente. 

O conhecimento da solução convencional pode ser um bloqueio, sempre que se procuram novas soluções. O processo criativo deve muitas vezes ser ingénuo, partir do simples e construir do quase zero, aproveitando apenas o conhecimento, nunca o caminho previsto para a solução. Nunca me esquecerei do carpinteiro que para qualquer situação tinha uma solução: “Isso resolve-se com uns pregos e uma ripa!”. Era um bom carpinteiro, mas a criatividade não morava ali.

Dizemos que criatividade é invenção. Mas não é (ainda que tenha paralelismos)! Criar é muito mais: é ser capaz de se libertar do que já está inventado, e percorrer OUTRO caminho de invenção. E essa capacidade, que seria excentrica no comum dos mortais, é crucial no processo criativo.

A este propósito não posso deixar de me lembrar de um trecho de um filme  de Werner Herzog (“O enigma de Kaspar Hauser?”). O filme é sobre um homem que nasceu isolado e viveu até á idade adulta no total isolamento até que, descoberto, é recolhido e ensinado a falar, socializar, e finalmente instruido. É então que é examinado por um professor de lógica para avaliar o seu grau de inteligência,.

A questão que lhe é colocada é clássica, e simples de explicar: imagine duas aldeias, uma em que todos dizem a verdade e outra em que todos mentem. Numa encruzilhada encontramos um caminhante. Que pergunta se lhe faria para saber, sem sombra de dúvida, de que aldeia vem? Pense um pouco sobre a questão, e só depois veja o trecho do filme.