Há um blog a que eu sempre retorno, e sempre releio. É o blog de  Tim Brown da IDEO. Chamado Design Thinking é provávelmente um dos mais influentes blogs no mundo do design. Design no sentido integral do termo. Influente na mais profunda acepção do conceito.

Tim Brown reflecte sobre a função e a forma, sobre o método e o fundamento, sobre o resultado e as opções. E reflecte com a mente aberta e um capacidade brilhante de realmente tirar elações, analisar e criar.

Vem isto a propósito de um post de Tim Brown há já algum tempo (26 October 2009) sobre a questão que já deu origem a algumas interessantes discussões no seio dos designers e dos teóricos do design: Simplicidade ou Minimalismo?

A reflexão e até alguma polémica justifica-se, tanto mais que o minimalismo é algo que acaba por ser ostensivamente usado em muitas soluções. E porque se torna obvio. Ostensivamente obvio, diria eu.

E então a simplicidade não? Pois a simplicidade certamente que não. A simplicidade “reduz-se” a tornar o design efectivo.

Opinião polémica esta? Pois parece que Tim Brown tem essa mesma opnião! Lendo algumas definições sobre design, encontrei, talvez no lugar mais obvio (a wikipedia) uma definição de Design que me parece útil (não será certamente a única):

Denomina-se design qualquer processo técnico e criativo relacionado à configuração, concepção, elaboração e especificação de um artefato. Esse processo normalmente é orientado por uma intenção ou objetivo, ou para a solução de um problema.

Mesmo para um leigo ressaltam da definição alguns conceitos, dos quais os menos importantes não são certamente os seguintes:

  1. design é um processo
  2. o processo é técnico e criativo
  3. é orientado para a concepção, elaboração e especificação de um artefacto.
  4. o processo é orientado para uma intenção, um objectivo ou para a soluçaõ de um problema

Acrescentaira muito pouco a esta definição – talvez apenas alguns limites que distingam claramente design (numa acepção genérica)  de “engenharia” ou, talvez, design de algumas das suas aplicações ou processos com algum paralelismo, mas que deveriam antes de mais ter nome próprio, quer pelas suas especificidades e especialização, quer ainda pela particularidade dos conceitos que envolvem (como, por exemplo, a concepção de produto, o “design” de processo ou o design gráfico).

Mas salientaria ainda a especificidade do processo de design, no objectivo de “resolver um problema” ou de orientação para um objectivo (que acrescentaria é, geralmente, no âmbito do design, funcional ou prático).

Ora o minimalismo é por definição uma caracteristica/opção do resultado e, muitas vezes meramente estética ou formal. Não é certamente uma opção funcional ou técnica. Algumas vezes, muito poucas, pode parecer uma opção técnica ou funcional; mas não é. É que se uma definição funcional é efectiva, ela não tem alternativas, sejam  minimalistas ou maximalistas: ela é completa em si própria e define de forma inequivoca a função e o objectivo. E quanto ás opções tecnicas elas não são conceptuais, são realistas e baseadas em factos técnicos, que não têm opção minimalista, porque “são como são”, como a fisica e como a realidade.

Já quanto á forma a solução pode ser efectivamente minimalista (como pode ser muitas outras coisas), mas apenas sob o ponto de vista estético ou conceptual, nunca sob o ponto de vista funcional, técnico ou processual, já que nestes não há opções desta espécie.

Por contrapartida, simplicidade tem a ver com a efectividade da solução, com a minima complexidade possivel para a maximização do resultado. O que é simples usa o minimo de recursos para o máximo de resultados. E isso tem a ver com a comprensão real do problema, do objectivo e das componentes tecnicas. Tem a ver com a eficiencia da solução, e com a minima complexidade de processos e recursos.

Diz Tim Brown, em referência ao livro de John Maeda, intitulado “The Laws of Simplicity”:

My own view is that minimalism has come to represent a style and as such is limited in its usefulness. It represents a reaction to complexity whereas simplicity relies on an understanding of the complex. This is an important difference. One is about the surface, about the stuff. The other is about our experience and requires a deep appreciation of how things work so as to make them just simple enough.

E aqui está o cerne da questão. Dificilmente poderia expressar melhor a minha própria opinião sobre o assunto. Como sempre Tim Brown espanta-me pela clarividência. E sintetiza:

Minimalism is often all too obvious while great simplicity can be practically invisible.

Invisivel, porque apenas tem a ver com a eficácia da solução e a total ausência de complexidades desnecessárias para a obtenção do resultado, e não com a adição de predicados estetico, técnicos ou formais desnecessários, para atribuir ao seu objecto a propriedade de minimalista. O processo de concepção minimalita é frequentemente doloroso, enquanto o de simplicidade é frequentemente apenas trabalhoso. E isto também os distingue.

A diferença fundamental é pois de que um (o minimalismo) é uma opção que, estando ao alcance de todos ou apenas de alguns, adiciona e complica a solução, tornando-a aparentemente simples, enquanto a outra (a simplicidade) é uma opção que, implicando o verdadeiro entendimento do problema e das opções de solução, a optimiza.

Para quem sabe programação em C há belissimos exemplos:

A solução minimalista:

#include <iostream>
using namespace std;int main(){cout << "Hello World!\n";}

A solução simples

int main()
{
        printf("hello, world");
}

E sobre o assunto, Tim Brown expressa também opinião num livro simplesmente fabuloso, sobre este e muitos outros assuntos relacionados com a sua visão do design: Change By Design, por Tim Brown (veja-se http://www.ideo.com/cbd)

Referências
http://designthinking.ideo.com/?p=404/#content
http://pt.wikipedia.org/wiki/Design
The Laws of Simplicity (Simplicity: Design, Technology, Business, Life) – John Maeda
Change By Design, por Tim Brown