Os quiosques multimedia foram moda há uns anos atrás.

Espalharam-se como cogumelos mas, como aqueles, rápidamente se tornaram pouco mais que recordações mortas a um canto em cada local onde foram instalados, pela desactualização tecnológica, por terem perdido o efeito de novidade mas, principalmente, porque alguem se esqueceu que os conteudos necessitam de ser actualizados, sob pena de obsolescência.

Numa segunda vaga, mudaram de forma, cresceram, perderam aqueles artefactos que dão pelo nome de teclados, sempre antivandálicos e, por isso, metálicos, duros e desgradáveis e as trackballs, que, por mal conservadas sempre foram impossiveis de usar. As aplicações ganharam côr, ergonomia, o design modificou-se e repentinamente descobriu-se que uma consulta feita de pé, com agasalhos vestidos, pastas ou sacas na mão, e com apenas alguns segundos disponiveis antes de prosseguir, não é bem o mesmo que estar em casa comodamente sentado à mesa, com um computador na frente.

Foram redesenhados para melhor servirem quem os usa de pé, em condições pouco favoráveis, ganharam touchscreens, mais intuitivos, mais práticos e mais fáceis de usar em condições menos favoráveis. As aplicações tornaram-se muito mais gráficas, com uma navegação mais directa, mais pensada para a simplificação, mais visuais e principalmente mais informativas. Mas rápidamente ficaram encostados a um canto, desligados, inexplorados, mortos, porque alguem se esqueceu de que os conteudos necessitam de ser actualizados, sob pena de obsolescência.

Uma nova vaga multiplica as suas dimensões, aumenta-os, incorpora design e ergonomia na sua concepção, catapulta os terminais interactivos para todos os locais, omnipresentes, desde os vidros das montras na loja de prestigio, ás montras da loja de bairro, desde a sua incorporação no mobiliário da loja, até ás paredes dos museus, às estações do metro, aos transportes públicos. Os terminais interactivos adquirem multiplas identidades, do simples terminal de consulta à máquina de vending, desde a máquina multibanco à legendagem de peças expositivas em galerias, da simples máquina de pagamento em parques de estacionamento, ao atendimento no clube de video. A usabilidade e a fiabilidade passam para o primeiro plano, o design e a ergonomia tornam-se preocupação, a tecnologia facilita o uso.

Esperemos que ninguém se esqueça de que os conteudos necessitam de ser actualizados, sob pena de obsolescência.

Seria estranho todos os dias de manhã comprarmos a mesma edição do jornal diário,  na banca da esquina: repetidamente as mesmas noticias, os mesmos titulos, as mesmas fotografias, dia após dia. Seria impensável! Mas mais estranho é quando alguém pensa que um terminal interactivo pode manter conteúdos iguais e inalteráveis dia após dia e, ainda assim ser usado, ter utilidade, cumprir alguma função. E no entanto, isso é o pão nosso de cada dia.

Hoje trazemos o terminal interactivo no bolso e chamos-lhe iPhone, ou se quisermos retirar a marca, chamamos-le telemóvel,  PDA, terminal pessoal, ou outra coisa qualquer… 

E se hoje é indistinguivel a tecnologia que está por detrás de um terminal interactivo daquela que suporta a internet,  ainda mais estranho é quando, mesmo entidades que entenderam já que um Website só é eficaz, só funciona, só tem exito, quando tem actualização diária de conteúdos, permanente renovação, dinamismo e variedade, insiste em pensar que os terminais de consulta como se de um tijolo se tratasse, podem permanecer impávidos e serenos a um canto, sem actualização, sem alimentação de conteúdos e, mesmo assim, serem uteis. A verdade é que não:  é que os conteudos necessitam de ser permanentemente actualizados, sob pena de obsolescência.

Repensar a forma com os interactivos são usados, sob o ponto de vista de conteúdos, e por isso mesmo entender a sua real utilidade e potencialidade como meio de comunicação, de imagem, de construção de marca, deserviço e informação ao publico, etc.,  é algo que parece estar no fim da lista das preocupações.

Entender que a gestão de conteúdos de um interactivo deve ser feita com o mesmo critério de eficácia, actualidade, actualização e variedade, da gestão de conteúdos de qualquer outro meio de comunicação, incluindo os websites, é algo que ainda não faz parte ainda do universo de preocupações de quem desenha a comunicação e imagem de uma empresa, entidade ou instituição que, potencialmente, poderia tirar extraordinário partido dos interactivos como elemento FUNDAMENTAL do marketing one-to-one, de serviço ao cliente, de criação de imagem de marca, de comunicação de marca, de informação e suporte ao cliente/utilizador, de divulgação, de venda, de eficaz disponibilização de informação impossivel ou inadequada para transmissão por outros meios, de redução de custos com ganho de eficácia e eficiência, etc.

Como elemento de mobiliário interior, começam a aparecer as primeiras utilizações inteligentes.

Vimos uma sala de cinema em que um interactivo junto à bilheteira permite a visualização de traillers e previews, por acção do possivel espectador, e uma sala de concertos em que o programa do mês é navegável, permitindo a reserva de bilhetes, que imediatamente se recolhem na propria bilheiteira.

Num centro comercial um interactivo permite encontrar a loja ou serviço que se pretende, traçando-nos o caminho até lá chegar. No metro um sinal sonoro descrito como “canto de passarinhos” orienta os invisuais até à bilheteira, às saidas ou à plataforma de embarque, usando um simples telemóvel. Numa biblioteca o interactivo permite a consulta rápida de todo o espólio sem a sua manipulação, a selecção e o pedido do livro pretendido, mas estende a informação á leitura de resumos e extratos, à informação de autor, colecção, contexto, livros semelhantes, etc. Numa editora de imprensa diária, o interactivo disponibiliza no átrio a informação em tempo real, saida directamente da redacção, antes de chegar à rotativa, e outro permite ao comprador ocasional de publicidade nos classificados escrever, formatar e validar o seu anuncio, verificar e escolher os locais disponiveis para publicação, já com paginação real, validar o custo e proceder ao pagamento. Num museu, um interactivo permite uma viagem virtual de época, aos sectores arqueológicos contiguos, situados no subsolo, mas fechados ao público por questões de segurança e protecção. Numa galeria de arte um interactivo permite explorar a colecção não exposta, mas disponivel para venda, do autor ou da temática exposta.

Num restaurante a mesa interactiva permite a exploração do menu, dos detalhes das propostas, permite fazer o pedido, com as alterações pretendidas a cada prato proposto, fechar a conta, fazer o pagamento… e entretanto permite navegar na internet, ler as noticias, escolher o programa referido de televisão ou ver os videos do youTube.

Mas se “há bons exemplos”, porque não “servem de exemplo”? Talvez por distração, por displicência, ou até por falta de real compreensão de quem pensando que sim, não tem a necessária cultura de comunicação e tem ainda algum deficit de capacidade de uso eficaz da tecnologia para a comunicação. Ou talvez apenas porque nunca se pensou nisso! 

Hoje a tecnologia é ominipresente, e existe espalhada mesmo em contextos inesperados, e as interacções interpenetram-se tornando indistinguivel cada aparelho, que passa a participar de um todo uno, que beneficia de conceitos comuns, de informação em quantidades gigantescas, de capacidades quase intuitivas, mas ainda mal aproveitadas e definidas:

O telemóvel é um terminal, e não apenas um telefone, e pode interagir com a porta da garagem ou com a emissão de televisão e o frigorifico encomenda reabastecimentos directamente ao distribuidor. Mas o conceito de televisor tranformou-se (apesar de o uso ainda não o reflectir) no conceito de terminal digital, em nada diferente do computador doméstico, com capacidade de video, mas que nada impede que funcione como consola de jogos, terminal internet, jornal digital, moldura digital de fotografias, media center, terminal de comunicações. E nada impede que funcione em conjunto com o telefone, que é também máquina fotográfica, terminal interactivo, media center, etc. Um telemóvel com bluetooth pode servir como comando do aparelho de televisão, pode comandar a nossa conexão internet, e permitir o acompanhamento dos downloads para o nosso media center, ou mesmo para editar a lista, pode servir para votar, para participar no concurso no centro comercial em que estamos, para comprar o bilhete do cinema no piso superior, para fazer o pedido no restaurante, ou para enviar a lista de compras à loja de bairro antes de lá chegarmos.

Repensar o mobiliário urbano incorporando os novos conceitos (já formulados e os tantos que ainda ninguém formulou) é urgente. As paragens de autocarro podem informar sobre o tempo de espera, em tempo real, mas podem também vender os titulos de transporte ou validar os existentes… e podem entreter, informar e publicitar. Os MUPI’s digitais e interactivos vão espalhar-se e permitirão rápidamente que o transeunde use informação disponivel numa aplicação adequada, sobre a cidade, o transito, o comércio, os serviços, mas certamente será possivel também verificar a sua caixa de correio electronico, monitorizar o sistema de segurança de sua casa, e áté ligar o forno enquanto espera pelo autocarro (estranho? talvez, mas nada o impede com a tecnologia actual, nem sequer o possivel custo, apenas a falta de real imaginação e inovação).

Transformar cada local onde estamos, na cidade, no centro comercial, em casa, na nossa ou na do vizinho indiferentemente, no local de trabalho ou no de lazer,  numa extensão do nosso próprio mundo particular, num local de ligação a todos os locais digitais que nos identifiquem, a todos os dispositivos que fazem parte do nosso universo, que se torna imaterial pois está presente na rede global, é pouco mais que entender o que isso realmente significa e implementá-lo, na prática, com suporte real a funcionalidades realmente úteis. Quem o começar a fazer vai ser tão inovador como quem inovou com o google, com o twitter, com a internet, ou com a web, ou mais ainda, como quem inovou inventando a roda, o dinheiro, o automóvel, o telemóvel, ou qualquer outro dos dispositivos que hoje fazem parte da nossa vida.

Mas em tudo isto o essencial é prever a funcionalidade, a actualidade, e a real utilidade de cada ideia, de cada implementação, de cada informação, de cada serviço. E isso mesmo se passa relativamente a qualquer meio de comunicação. E o mesmo se passa relativamente a TODOS OS CONTEÚDOS, indiferentemente do seu suporte tecnológico, lógico ou fisico. 

E nos chamados quiosques multimedia isto ainda é mais verdade, e adquire maior importância pois mais importante é garantir a sua eficiencia, quer pelo seu custo, quer pela efectividade da sua presença como potencial comunicador, que pode funcionar como elemento motivador (o ser humano é curioso, mas é comodista!) quer pelo espaço fisico que ocupam, quer por poderem funcionar como elemento de comunicação dirigida, preparados para passar a mensagem pretendida, e principalmente por oposição a todos os outros meios que, de outro modo são já muito mais motivadores, dinâmicos, portáteis, versáteis, interessantes e uteis.

João Ledo Fonseca