Tentar acompanhar a evolução tecnológica do mercado, hoje em dia, em àreas como o multimedia, o media, a comunicação, é o mesmo que tentar apontar uma arma ao infinito e fazer pontaria para o nada. As evoluções e mudanças, são demasiado rápidas para o comum dos mortais. A solução é a especialização ou a inconsequência. Será?

A inconsequencia é o refugio do consumidor: o que está na moda? Então não interessa como funciona ou para que serve: compra-se. A especialização é o refugio do profissional, que se reduz a uma visão, completa, é certo, mas sectária e sectorial; mas é também o carrasco da criatividade. Consumo ou falta de criatividade… um dilema dificil de resolver. 

Há alguns anos atrás, num grupo de trabalho em que participava activamente, surgiu uma ideia de uma possibilidade de desenvlvimento multimedia. Rápidamente foi feita uma pesquisa na internet que resultou em cerca de 2.000 resultados, entre os quais 100, ou um pouco mais, referentes a gente ou grupos que investigavam o  mesmo campo, mais uma centena referentes a trabalhos académicos publicados, que referiam directamente o assunto e uns 900 que vagamente tocavam no tema, com desenvolvimentos crediveis. Os restantes eram falsos resultados: empresas que usavam expressões semelhantes para descrever competências, produtos descritos com expressões que se confundiam, e outros resultados semelhantes que de nada serviam para o tema em pesquisa.

Há dias surgiu uma ideia do mesmo tipo. Uma pesquisa na internet resultou em mais de 1 milhão de resultados, e a grande maioria directamente relacionados com o assunto.

Em ambos os casos o tema é (foi) completamente inovador (nenhum produto no mercado responde à necessidade). Em ambos os casos o tema é (foi) uma ideia pouco divulgada, raramente explorada, mesmo dentro do meio a que interessa directamente. Em ambos os casos a pesquisa interessa grupos académicos específicos. Qual a diferença?

A resposta é fácil: a economia “globalizada”, os mercados emergente, e a internet, transformou o modo como o mundo trata a informação e hoje mesmo o mais obscuro grupo de trabalho na mais obscura empresa nos confins de um qualquer obscuro país deste mundo, rápidamente divulga os seus “trabalhos” e “resultados”, ou meros “produtos”, tantas vezes sem qualquer mérito próprio,  tão depressa como os seus insucessos e dificuldades. Milhares de trabalhos académicos, de investigação e desenvolvimento ou simples reflexões são divulgados diáriamente e indexados pelos  motores de busca, a par e em igualdade de circunstâncias com milhares de entradas de “empresas” que classifico de “copiativas” (em oposição ás “criativas”).

O mundo deixou de ser o mesmo. A informação está disponivel… available… à mão de semear. Mas a dificuldade de encontrar o que pretendemos também! A quantidade de lixo aumentou exponencialmente… na internet e no mundo real… o número de referências e artigos sem qualquer relevância retornados por um motor de busca é gigantesco e insuportável; a informação relevante aparece cada vez mais mascarada em milhares de entradas de bloggers sem qualquer iportância, de sites de micro empresas sem qualquer interesse, além do seu mercado local, em milhares de reflexões pessoais, erros de indexação, referências meramente contextuais ou simples indexações directas de referências feitas unicamente pela expressão, sem referência contextual. Também os “produtos” lixo…

No mundo real, milhares de produtos aparecem com origem em produtores sem referencia, sem contexto, sem credibilidade. A agressividade chinesa no mercado é tal que uma simples pesquisa na internet de uma qualquer marca conhecida retorna centenas (ou mesmo milhares…. experimentem uma pesquisa por produtos do tipo LED, iPhone ou outros de vanguarda…) de produtores e distribuidores chineses de clones. Uma pesquisa por uma qualquer expressão, retorna centenas de empresas chinesas que usaram a expressão… simplesmente para conseguir resultados nas pesquisas…

Qual a credibilidade destes resultados?  Qual a sua relevância? Qual a capacidade real destas empresas e destes produtos? E qual a capacidade de, obscurecida por esta nuvem de irrelevâncias, se encontrar a referencia pretendida, o produto de referência, a origem de uma ideia, a pessoa ou grupo no centro de uma investigação, de um desenvolvimento? Nula! E o mundo perde com isso.

Por outro lado é impressionante como o mercado compensa empresas produtoras de lixo… de clones e imitações de baixa qualidade; clones não funcionais…lixo que o consumidor compra, iludido pela moda…sem saber qual a funcionalidade, a fiabilidade ou a qualidade… e estas empresas nem sequer se preocupam em informar, pois se o fizessem não vendiam: para um produto fabricado na UE são exigidas certificações, manuais e rótulos no próprio idioma… para um “produto lixo” fabricado na china o manual e o rótulo pode vir em “ptrugzes”, incompreensivel, enganador, não há problema… só o consumidor vai sofrer… para produtos produzidos na UE as empresas têm de pagar direitos e protecção social atodos os trabalhadores… para produtos produzidos na China basta uma malga de arroz… é impressionante como o mercado admite e compensa empresas que reproduzem e nada produzem; como o mercado admite e compensa empresas que exploram mão de obra escrava e nada desenvolvem… paises que declaradamente ignoram os direitos humanos são compensados, para não falar em direitos  intelectuais, industriais, patentes, direitos de autor, copyrights…e em contrapartida penaliza fortemente empresas que desenvolvendo, se digladiam num mercado mais local, muito mais regulado, muito mais regulamentado do que um virtual “mercado” global controlado pela pressão comercial esmagadora da China… e a UE, em que estamos,  nem penaliza uma China (e seria bom que fosse caso único!!!) de trabalho escravo, de desrespeito pelos direitos intelectuais, de completa ignorância dos direitos de autor, de desrespeito assumido pelos direitos de propriedade e design industrial e do design original e criativo, ao mesmo tempo que patrocina a forte penalização das empresas locais criativas, que investem fortemente em R&D, em design e criatividade. E os mercados ocidentais ainda pagam completamente uma OMC que segue os mesmos padrões…

Somos todos cumplices de uma situação que canibaliza a civilização de que nos orgulhamos, a raça humana e os valores históricos, sociais e civilizacionais, que cinicamente dizemos defender. Somos os obreiros da nossa futura miséria, na Europa, na UE… e assobiamos para o lado, como se nada se passasse!!!

E o que podemos fazer? Simples: não comprar; recusar; escrever e denunciar; ser assertivos perante as nossas distribuidoras e os nossos comerciantes; reclamar e exigir; exigir informação, cumprimento de legislação, rotulagem, manuais, garantias, assistência técnica… ser cidadãos integrais!!! Qual a dificuldade? …e votar…

Felizmente a situação tem retroaliamentação ou seja feedback negativo: tão depressa a massa crítica das industrias copiativas se sobreponha à das industrias criativas, a situação inverter-se-à, e pela diminuição drástica da criação de valor, e diminuição intensa do interesse económico, assistiremos a um reajustar de equilibrios, com tendencia ao estabelecimento de um equilibrio num ponto e que os ex-escravos (chinese, indianos, e outros tantos que hoje servem a produção para o consumo indiferenciado ocidental) comerão tanto quanto o necessário para a sobrevivência dos outros, os criativos (que estarão nessa altura a seu lado) … mas nesse caso a UE já pouco terá a dizer… porque ao tentar sobreviver, já estará definitivamente do lado dos copiativos, e na China, no oriente, nas economias emergentes (hoje sem regras, com escravatura, e pagas pelos mercados ocidentais) estarão os criativos… a ver vamos. Para mal dos nossos pecados…

 

Referências

http://www.wsws.org/pt/2007/jun2007/chpo-j28.shtml
http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=4171
http://invirtus.net/in/story.php?title=China-F%C3%A1bricas-fizeram-centenas-de-escravos-e-empregavam-53-mil-trabalhadores-ilegais
http://lodonocais.blogspot.com/2007/06/made-in-china.html
http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EEFylElEkVcmcYjraa