Há cerca de vinte anos Mark Weiser elaborou uma visão construida em torno de dois conceitos chave, e que ainda hoje guiam as pesquisas de HCI (Human–Computer Interaction).

O primeiro conceito é o que se poderia chamar em português de  computação ubiqua (ubiquitous computing), e é essencialmente uma visão sobre miniaturização, hardware e proliferação de sistemas de computação universalmente disponiveis e aplicados. A verdade é que podemos dizer que este conceito é hoje uma realidade, e a visão de Weiser está quase completamente realizada. O Google retorna mais de 3 milhões de links acerca do assunto, incluindo todo o tipo de eventos e iniciativas (conferências, worlshops, projectos de pesquisa, iniciativas da industria, etc.)

O segundo conceito é o de calm technology. É acerca do design de interacção, percepção, qualidade, adequação, psicologia e poesia. O facto é que está completamente irrealizado. O conceito é sobre subtileza no interface dos computadores com os humanos, sobre qualidade em vez de quantidade… O que aconteceu com ele? O Google retorna menos de 50 mil resultados sobre o assunto, e aparentemente muitos são links mortos, ou páginas sem manutenção.

A conclusão é que a humanidade esqueceu a herança mais precisosa de Weiser e, no entanto, essa seria a mais interessante das temáticas para pesquisa num mundo em que os computadores fazem parte integrante da nossa vida, e se impõem desde o exercício da profissão aos momentos de lazer, desde os grandes projectos cientificos da humanidade, à mais inocente actividade amadora ou de hobby.

Todos nos habituámos a uma interacção com o computador em que movimentando sobre uma superficie horizontal um objecto a que chamamos rato tentamos movimentar numa superficie vertical o seu ponteiro. O cérebro humano consegue adaptar-se a esta situação, mas quanto de anti-natural tem tal interacção. E para o concluirmos basta ver o desespero de alguém que pela primeira vez tenta usar um rato de computador.

Quando se pendura num berço de um bébé um mobil com meia duzia de borboletas coloridas, ele rápidamente se interessa, ri, “fala”, estende o braço e, mesmo que inalcançável, tenta interagir com as boboletas coloridas. Este deveria ser o conceito por detrás de todas as interacções: o homem interage naturalmente com o seu meio ambiente através do gesto, do tacto, do contacto, estimulado pelas cores, aparência visual que desperta a curiosidade, sons, movimentos… os computadores interagem conosco essencialmente através de um rato e um teclado, e um ecrã. Do mundo que o rodeia e do ser humano que o usa, o computador sabe apenas o que lhe chega pelo teclado. Pode esta interacção ser natural?

That’s what we think. Take technology for istance: the more it becomes advanced, the more it becomes difficult to access. Virtually you can do everything, wherever, always. Then you get frustrated because technology itself becomes the problem instead of the solution.

We’re imaging a different way to use technology. Let’s say we’re trying to forget it, to make it transparent. And, as we’re Italian, we’re thinking about Design. We’re thinking about physical spaces and how digital contents can spread over them, interacting with us and creating memorable experiences.

Declaração de intenção da ioo (uma divisão da IOAgency)

A percepção do mundo à nossa volta faz-se na assunção de regras fisicas que não constituem rasteiras à nossa percepção. Os objectos fisicos não se trocam de lugar via hiper-espaço, não usam propulsão warp, e no mundo real não temos percepção da relativade e por isso os objectos não mudam abruptamente de zoom ou de dimensão… não mudam de cor em flash’s de luz, não transitam de estado instantâneamente, não mudam de significado entre duas utilizações consecutivas, nem fazem scroll a centenas de linhas de texto por segundo. O cérebro humano, tal como é, não entenderia tal mundo, e previsivelmente seria rápido o seu colapso. E no entanto nos interfaces computacionais trocamos ecrãs sem qualquer transição, a informação visual muda constantemente, sem aviso, sem relação, sem sequencia, as imagens, páginas e indicações aparecem e desaparecem sem qualquer transição lógica ou ligação, sem permanência e sem rasto, e tantas vezes sem possibilidade de exploração táctil, visual, auditiva e continuada.

Nestas circunstâncias muito do esforço perceptivo e cognitivo de um humano é desperdiçado a tentar acompanhar e entender as alterações da informação e as suas relações com as anteriores e as seguintes peças de informação, mais que a explorar a própria informação. A televisão e o cinema ajudou a uma habituação às mudanças rápidas do campo visual. Mas isso não significa que essa seja a forma natural de percepcionar o mundo, nem a mais eficaz para o cérebro humano; e com isso estamos a desperdiçar alguns milhões de anos de evolução.

Muito esforço tem sido posto na adequação dos aspectos estáticos de interfaces, de ecrãs e de apresentações de dados. Quanto tem sido dedicado à sua transição e às formas de relacionamento entre diferentes estados? E quanto tem sido dedicado à adequação das formas de interacção?

Pensar novos interfaces de relacionamento, hoje em dia, terá que ser, acima de tudo, repensar completamente a forma de representação e relacionamento de informação que o computador produz, bem como a nossa forma de expressarmos as nossas intenções e vontades; o ser humano é de facto multimedia; o mundo é de facto multimedia; mas as regras de interacção são simples e fisicas, gestuais, tacteis, auditivas. O mundo fisico não nos trocas ecrãs, nem nos substitui instantâneamente cenários e mundos. No mundo fisico as coisas tendem a permanecer. O gradiente da mudança é sempre finito. No mundo fisico o tempo e o espaço não apresentam singularidades… pelo menos que possamos percepcionar naturalmente.

E essa é a principal barreira entre o homem e o computador. Essa é a principal deficiencia na concepção de interfaces e de media digital, de multimedia, de conteúdos, de formas de relacionamento com o computador. É também certamente o desafio para o próximo século.

 

Mark Weiser – Wikipedia
Human–Computer Interaction – Wikipedia
List of Human Computer Interaction Topics – Wikipedia
Alessandro Valli White Paper on Natural Interaction
The Computer for the 21st Century – por Mark Weiser
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