Ainda pouca gente notou, mas o YouTube, e outros sites de difusão de video estão progressivamente a desviar audiência à televisão e, no curto prazo, o fenómeno parece ter tendência apenas a aumentar.

Ver o que se quer, quando se quer onde se quer, esse é o encanto dos canais YouTube. Em muitos casos escolher o que se quer ver, e ver apenas isso, é o verdadeiro encanto. Noutros casos, escapar à programação disparatada, incoerente, inconsequente, desinteressante, e ir directamente apenas ao que realmente interessa é o cerne da questão.

E quando falamos de YouTube, não podemos esquecer outros serviços semelhantes que têm tanta ou mais importância que o YouTube (YouTube, Metacafe, iFilm, Bebo), num ou noutro meio. São muitos os serviços e muitos os nichos em que adquirem importância e relevância.

Há uma geração inteira (ou serão já duas?) que já passa mais tempo na internet, que a ver TV.  

O estudo da BBC

Segundo um relatório da BBC, 43% dos público que usa o YouTube diz que vê menos televisão desde que se habituou ao YouTube e sites similares,  enquanto 20% desses dizem que reduziram drásticamente o tempo de televisão. Apenas 3% vê mais teevisão do que via há um ano atrás, enquanto apenas 54% mantêm o mesmo nivel de visinamento de TV.

Três quartos dos entrevistados que vêm videos online afirmam que vêm mais videos e TV online que viam há um ano atrás. Contudo estes dados referem-se apenas àqueles que vêm videos online pelo menos uma vez por semana. O certo é que 67% da população do Reino Unido afirma que não vê e não planeia ver nos proximos tempos videos online. Claro que isto não espanta, tanto mais que  o fenómeno de visionamento de videos online ocorre principalmente nos mais jovens, e é portanto um fenómeno que surge entre a população que vai formando agora novos hábitos: 28% no escalão etário dos 16-24 anos, usa pelo semanalmente a internet para ver vídeos online.

 

Fenómeno complexo

O fenómeno é ainda mais complexo se pensarmos que cada vez mais os ecrãs de computador são indistinguiveis dos televisores, e que em muitas situações o ecrã é comum ao computador e à televisão. A proliferação de IPTV (e o numero de assinantes em Portugal é também já muito apreciável), dos canais de televisão e das emissões em directo na internet, ou os serviços móveis de televisão, bem como os serviços triple-play, em que televisão, telefone e internet se ligam na mesma caixa, e técnicamente são indistinguiveis, sendo possivel ter a televisão e o VOIP (Voice over IP) no computador, ou as chamadas telefónicas no televisor, ou mesmo direccionar os videos da internet para o ecrã a que de outra forma chamariamos televisor.

Produtoras de conteúdos

Em entrevista, um responsável da RTP dizia há dias que a breve prazo o nome RTP (Radio e Televisão Portuguesa) deixa de fazer sentido, e mais apropriado será alterar rápidamente o nome de modo que traduza uma nova realidade que é o de a RTP ter passado a ser, antes de tudo o mais, um produtor de conteúdos, independentemente de qual a plataforma técnica de distribuição (rádio, televisão em sinal aberto, cabo, internet, IPTV, TV digital terrestre, satélite ou serviços móveis) e apenas por acréscimo operar algumas das plataformas de difusão ou de distribuição de conteúdos. Mas a operação de uma qualquer plataforma de difusão até passa a ser insignificante, face à proliferação de meios para  fazer e ao seu fraccionamento.

Aliado ou Inimigo?

Para as televisões que de forma natural passaram a ter presença internet, YouTube, ou plataformas em serviços móveis ou IPTV, a presença no YouTube funciona como um aliado: serve inclusivamente de divulgação, potenciada pelas ligações que conseguem fazer entre websites, serviços digitais, internet, serviços móveis, sinal aberto, etc… Para as outras o fenómeno YouTube, e de serviços internet semelhantes, ou os serviços de televisão via internet vão constituir rápidamente um quebra cabeças, que lhes vai esgotar parte da audiência.

Compreender este novo fenómeno é a chave para sobreviverem. Usar sinergias entre meios, ligações entre distintos canais técnicos, cruzamento de canais e captar audiências de forma multipla, nas várias plataformas, passou a ser um imperativo. A CBS tem uma excelente experiência com o uso do YouTube e não se pode queixar de perda de audiências, ao contrário de outras televisões. Mas a CBS compreendeu o fenómeno e acompanhou-o. São opções estratégicas esclarecidas que nem todos podem ter.

Fenómeno duradouro?

O certo é também que o fenómeno pode durar pouco, e com a passagem de todas as televisões a serviços digitais, se por um lado se faz desaparecer a fronteira entre televisão e internet, por outro vai começar a criar serviços bem delimitados, obtidos através de uma plataforma que é parcialmente comum à internet (pelo menos semelhante em natureza e plataforma técnica), e transformar a televisão como a conhecemos hoje, numa televisão muito mais personalizada, “on demand”, por subscrição e com serviços pagos individualmente, em que o utilizador escolhe o que quer ver, e ignora o que não lhe interessa, construindo a sua programação como hoje faz no YouTube.

O YouTube e outros sites de video tenderão a ser parte integrante dos canais digitais, que por sua vez são canais que ganharam em potencial de personalização, uma vez que o utilizador escolhe o quer ver, como hoje pode fazer na internet.

De qualquer modo a evolução não será fácil e isenta de dificuldades; e senão veja-se este artigo (também da BBC): Future of TV: Still on standby .

Conclusão

Muitas televisões (pelo menos no UK) afirmam que terão todos os seus conteúdos online até ao final do ano. Provávelmente farão isso nos seus próprios sites, como se vai fazendo hoje em Portugal. Provávelmente passarão ao lado de poderem usar a força do YouTube, e continuarão com isso a perder audiências.

O que todo este  fenómeno tras de novo é que as televisões, tal como dizia o responsável da RTP, ainda estão a precisar de perceber que perderam toda a importância como operadores de canal fisico de difusão, e se reduzem (ou se constituem) como produtores de conteúdos, independentemente do canal técnico de difusão. E quem entender isso mais cedo, terá possibilidade de sobreviver, partindo para novos modelos de negócio; quem o não fizer vai ficar a operar redes de difusão sem audiência e sem qualquer utilidade…

 

Referências
relatório da BBC
YouTube vs. TV or PR vs. Surveys
Google: YouTube won’t cannibalize TV
http://mashable.com/2006/11/27/youtube-vs-tv/