A lei de Metcalfe e a Web 3.0


Lei de Metcalfe - Valor de uma redeApresentada em primeiro lugar por George Gilder em 1993, mas atribuída a Robert Metcalfe quanto à sua aplicação à Internet, a desde então chamada lei de Metcalfe (mas de facto lei de Gilder) estabelece que para grandes números, o valor de uma rede de comunicações é proporcional quadrado do numero de utilizadores ligados ao sistema.

Esta lei no entanto remonta já a estudos de cerca de 1980, não em termos de utilizadores mas de compatibilidade de equipamentos de comunicação (por exemplo maquinas de fax). Numa utilização comum a lei de Metcalfe caracteriza muitos dos efeitos de redes de comunicação e redes do tipo da Internet.

Media Social - Lei de Metcalfe - o valor de uma redeDe facto é uma lei geral que se aplica ao valor de qualquer estrutura ou sistema em rede, podendo ser aplicada, por exemplo a redes sociais, cientificas, de comunicação ou de qualquer outro tipo. Na prática a lei relaciona-se com o facto de que o numero de ligações únicas possíveis numa rede de (n) nós é dada pelo valor n(n − 1)/2, que é assintópticamente proporcional a n² ( o que significa que quando n tende par infinito, o numero de ligações possíveis tende para n²).

Um exemplo tradicional de aplicação da lei é o seguinte: uma rede de 1 maquina de FAX é absolutamente inútil, por não ser possível estabelecer qualquer ligação, mas quando se adiciona uma nova máquina de FAX, o valor da rede cresce por ser possível efectuar uma ligação. Quando se soma nova máquina, o numero de ligações possíveis sobe de novo (neste caso para uma rede de 3 maquinas é possível efectuar 3 distintas) e uma quarta máquina faz de novo subir o valor da rede, ao aumentar de novo o numero de ligações possíveis para 6. Este numero de ligações possíveis tende para n².

Claro que esta lei é mais uma lei metafórica e heurística do que uma lei exacta e matemática, uma vez que é impossível estabelecer de modo exacto o que é o “valor de uma rede”, além de que apenas para grandes números ela tem algum significado e aplicação.

De facto a lei mede apenas o numero possível de diferentes contactos, ou seja o lado exacto da tecnologia, independentemente do tipo do uso que possa ser efectuado na prática, o qual, esse sim, dá valor à rede. Por exemplo, o numero de maquinas de fax existentes no mundo todo pode nada significar se parte estiver na China e outra parte na Europa, e se chineses e europeus não se entenderem entre si. Há por isso que ser criterioso na sua aplicação.

Outros níveis de avaliação devem ser estabelecidos, independentemente do conceito estrito de ligação na rede. Na prática, a lei aplicar-se-ia neste caso às sub-redes funcionais existentes, cujo estabelecimento, uma vez mais, pode não ser tarefa fácil, e é certamente pouco objectiva e exacta.

Outro aspecto interessante desta lei e do universo a que se aplica, é que muitas vezes a própria rede muda de funcionamento simplesmente quando se aumenta o numero de nós. Este é o factor humano a entrar em acção.

Isto é o que se passa com uma rede social, que tendo sido iniciada com uma certa exclusividade de acesso, pode rapidamente descaracterizar-se ou mudar de função, ao ser vulgarizada. Mas nada impede também que possa repentinamente encontrar novos potenciais de exploração e novas formas de utilização, sem que nada seja feito pelos seus utilizadores para isso, excepto adaptarem-se naturalmente, e de formas inovadoras e criativas, às dificuldades que o próprio aumento da rede trás, bem como pelo aproveitamento das potencialidades acrescidas daí decorrentes.

Por tudo isto, Andrew Odlyzko e Benjamin Tilly publicaram um estudo preliminar que concluiu que a Lei de Metcalfe super estima significativamente o valor das conexões adicionais. O princípio torna-se então: “o valor de uma rede com n membros não é n ao quadrado, mas n vezes o logaritmo de n“. Sua justificação principal é a ideia de que nem todas as ligações potenciais de uma rede são igualmente valiosas. Por exemplo, várias pessoas ligam mais para o seu grupo de conhecidos do que para estranhos em outros países e, deste modo, não se obtém do serviço de telefone o valor total n equipamentos ligados à rede. Mas isto não passará de aplicar criteriosamente a lei de Metcalfe, devidamente atenta à definição de rede que se possa fazer. As observações de Odluzko e Tilly são relevantes, mas apenas quando a rede é encarada como a rede física total, ignorando estes critérios de aplicação, relacionados com as limitações humanas.

Lei de Metcalfe - Subgrupos - Valor acrescentado a redesPor outro lado, a Lei de Reed diz o contrário de Odluzko e Tilly, nomeadamente que a Lei de Metcalfe minimiza o valor das ligações adicionais. Um membro não está ligado apenas à rede como um todo, mas também a vários subconjuntos significantes do todo. Estes subconjuntos, cada um por si, adicionam valor independentemente do indivíduo ou da rede como um todo. Incluir os subconjuntos no cálculo do valor da rede aumenta esse valor de modo mais rápido do que incluir apenas membros individuais.

Do balanço entre ambas as posições, entende-se que como em tudo o que envolve a interacção humana, é preciso cuidado na aplicação dos modelos como o de Metcalfe. No entanto a utilidade da Lei de Metcalfe permanece, ao salientar o enorme aumento de valor de uma rede com o aumento do numero n dos seus nós (seja ou não essa relação quadrática!).

Tudo isto vem a propósito dos pensadores da denominada “Web 3.0”. Para alguns destes “profetas” o crescimento da rede Internet, com a adição progressiva e previsível de mais alguns milhares de milhões de pessoas num muito curto prazo, implicará um súbito e extraordinário aumento do seu valor; mas ao mesmo tempo poderá trazer mudanças radicais, lideradas pelo próprio uso que lhe será dado.

E se o padrão Web 2.0 praticamente apareceu e se desenvolveu em menos de 2 anos, e liderado mais pela forma como os utilizadores encaram a rede, e pelo uso que lhe vão dando, do que propriamente por grandes inovações tecnológicas, o que nos reserva o futuro, ainda que já tenha um nome e se designe por Web 3.0, dificilmente será previsível.

No entanto boas pistas têm sido dadas, quando se pensa a nova web já não como um somatório de documentos acessíveis e de meios de comunicação entre nós, mas sim como uma imensa nuvem de dados distribuídos, com um acesso uniforme e normalizado, pervasiva e ubiqua, omnipresente e distribuida.

E quando a isto se adiciona o conceito de web semântica, percebem-se as possibilidades imensas que se abrem, e a explosão de valor da rede que se pode realizar.

É que se pensarmos que a natural criação de um perfil online de utilizador, distribuído na rede, não intencional, mas quase natural, pode vir a influenciar o modo como a rede se apresenta ao utilizador, e no limite o modo como os dados (e já não os documentos ou páginas web) por ele podem ser acedidos, já filtrados e seleccionados, e se pensarmos ainda que a tecnologia é cada vez mais capaz de interligar o mundo real à rede, percebemos então toda uma nova realidade, em que provavelmente o nosso frigorífico saberá sugerir o prato que devemos confeccionar, fornecendo de imediato a receita, o nosso automóvel saberá sugerir um trajecto de que nós mais gostamos, já filtrado para os problemas do transito conhecidos em tempo real, e o hotel que reservámos terá no quarto a tocar a nossa musica preferida, da nossa própria play list online, sem que nada façamos para isso.

E o próprio hotel foi escolhido e marcado sem que nada mais tivesse sido necessário fazer do que confirmar a presença numa dada conferência na nossa própria agenda online, e autorizar a transferência do pagamento. Todo o resto a net já sabia: a nossa localização actual, a nossa agenda, a necessidade de deslocação e alojamento, as preferências de alojamento, os nossos dados bancários…

Quando ligarmos o nosso telemóvel de manhã, provavelmente poderemos ter os automatismos todos preparados para interagirmos com a net sem necessidade de escolher sites e fazer pesquisas, pois serão automaticamente encaminhados para nós os dados e noticias que normalmente procuramos, ou que são para nós relevantes. E todos esses mecanismos estarão de algum modo registados no nosso “perfil online”.

Claro que tudo isto não se efectuará sem que a criatividade de alguns tecnólogos e muitos desenvolvimentos (hoje existentes em laboratório) saltem para a rua. Mas a história recente demonstra que na Internet a mudança ocorre cada vez mais rápida e inesperadamente para os menos atentos, ao mesmo tempo que cada vez mais o motor da mudança é o real numero de nós ligados, ou seja o número crescente de utilizadores.

E o salto ( e a aceleração crescente dos novos saltos) entre a Internet de há poucos anos, em que alguns de nós fazíamos e consultávamos umas poucas páginas de texto em HTML, para a Internet actual, omnipresente em qualquer dispositivo móvel, cada vez mais capaz de fornecer informação e interacção geo-localizada, de estabelecer relações que fisicamente seriam impossíveis, ou de surpreender pela quantidade e qualidade (crescente exponencialmente, é certo) de informação de qualidade sobre TODOS os temas, faz prever que os próximos saltos da Internet (seja qual for a designação que se lhe dê), nos vai deixar completamente atarantados…

…ou não! Porque o facto é que se a Internet é feita pelos utilizadores, é também um facto que o passado provou o inêxito de tudo o que o utilizador não pode acompanhar ou é incapaz de compreender rapidamente.

Referencias

Metcalfe’s_law (Wikipedia)
Web_3.0 (Wikipedia)
Estudo Empírico Sobre a Lei de Metcalfe e o Efeito de Rede – Kazuki M. Yokoyama (U.Federal do Rio Grande do Sul) – PDF

What Would Web 3.0 Look Like?
How Web 3.0 Will Work, em HowStuffWorks
Web 3.0, em Webtuga

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