Um comerciante, qualquer que seja, não é mais do que um servidor
do público, ou de um público; e recebe uma paga, a que chama o
seu “lucro” pela prestação desse serviço. Ora toda a gente que
serve deve, parece-nos, buscar agradar a quem serve. Para isso é
preciso estudar a quem serve – mas estudá-lo sem preconceitos
nem antecipações, partindo, não do princípio de que os outros
pensam como nós, ou devem pensar como nós – porque em geral
não pensam como nós – mas do princípio de que, se queremos servir
os outros (para lucrar com isso ou não), nós é que devemos pensar
como eles. O que temos de ver é como eles efectivamente pensam,
e não como nos seria agradável ou conveniente que eles pensassem.

Fernando Pessoa