Quando se começou a falar de computação em núvem, a ideia foi estranha para muitos. Não tanto o conceito em si, mas sim as ideias das suas possiveis utilizações. Quem iria usar? Quem se disponibilizaria de boa vontade a armazenar seus dados na net, ou a abandonar as suas indispensáveis aplicações, instaladas nos seus sistemas, para passar a usar aplicações na net.

O facto é que a maioria de nós já usávamos a computação em núvem, quando, por exemplo, usávamos o webmail. Porém o conceito custou um pouco mais a ser entendido e aceite quando se tratou de abdicar da folha de cálculo ou do processador de texto, ou quando se tratou de armazenar dados ou abdicar de aplicações empresariais locais ou nos servidores privados, para recorrer a aplicações na nuvem. Mas esses são tempos passados. A computação em nuvem é hoje uma realidade que rápidamente se disseminou e constitui uma fatia importantissima do actual arsenal dos departamentos de tecnologia de informação. E mesmo os meros utilizadores começam já a render-se ao conceito, principalmente a partir do momento em que empresas como a Amazon, Google, IBM e Microsoft começaram a fornecer serviços em nuvem.

Quando Fredrik Malmer, um estudante sueco, criou o serviço originalmente disponivel em www.webos.org, baseado em XHTML e Javascript (tecnologia hoje designada por AJAX), não imaginou que estava a iniciar uma tendência. O seu objectivo seria criar um Sistema Operativo integral, baseado na internet, disponibilizando inclusivamente um API para a criação de aplicações. Este serviço foi mais tarde adquirido pela WebOS, empresa fundada em 1999 nos EUA, e nele foram incorporados desenvolvimentos e resultados de investigações das universidades do Texas, Califórnia e Duke.

Mas qual é afinal o conceito da computação em nuvem?

Na computação em nuvem os recursos (memória, computação, armazenamento, aplicações, etc) residem na internet (em servidores e data centers na internet), sendo o terminal utilizado por cada utilizador apenas um mero cliente “magro” desses serviços, necessitanto em geral apenas de um browser, e usando localmente quase exclusivamente apenas os dispositivos de entrada (teclado e mouse) e saida (ecrã, som, etc.).

O terminal do utilizador, ligado à net, necessita pois de dispôr de pouquissimos recursos, capacidades, ou software instalado. Usa a sua ligação à internet para recorrer a serviços disponiveis na net, que lhe proporcionam as funcionalidades das anteriormente aplicações locais (mail, processamento de texto, folha de cálculo, etc.). Usam meios de armazenamento desses (ou outros) servidores na net, onde ficam guardados os ficheiros, documentos, etc. Adicionalmente usam também os serviços da net para efeitos de cópia de segurança, workflow, encaminhamento e envio, controlo de versão, encriptação e compressão, etc…

A cloud computing pode ser vista essencialmente como o fornecimento de recursos de computação como uma “utilidade” (utility), da mesma maneira que electricidade, água ou comunicações. A cloud computing permite que a organização pague apenas os recursos de computação que usa, sem necessidade de se preocupar com as infraestruturas, operação, manutenção ou projecto. Estes serviços ou “utilities”, são fornecidos através da internet, num modelo de pagamento pelo uso (“pay-per-use”), com contratos de curto prazo e sem prazos alongados de fornecimento.

Quer se entenda isso ou não, hoje em dia já muitos de nós usamos esse tipo de serviços de cloud computing. O Facebook ou a Google são duas das mais destacadas empresas que fornecem serviços do tipo cloud computing, neste caso como serviços essencialmente gratuitos com milhões de utilizadores em todo o mundo. O Google, por exemplo, disponibiliza online uma quantidade de ferramentas e aplicações de produtividade tais como email, processamento de texto, calendários e agendas, partilha de fotografias, e ferramentas de criação de websites (bem como o seu alojamento).

De uma forma genérica,para ser considerado “cloud computing” os processos essenciais de computação de uma aplicação e/ou o armazenamento de dados associado devem ser fornecidos via internet, tal como a sua gestão, e acessiveis de qualquer equipamento na internet, seja um PC, laptop ou dispositivo móvel, com uma ligação em tempo real.

Este modelo apresenta vantagens?

Claro que sim. A lista de vantagens é vasta.

  • Baixa exigência do equipamento (hardware) do utilizador, que pode ser de facto um equipamento com baixa capacidade de computação, já que práticcamente apenas necessita de executar um browser.
  • O terminal de utilizador não necessita também de software local, além do browser.
  • O utilizador e as corporações passam a poder aceder aos seus dados corporativos ou privados, ao ambiente de trabalho, ou ainda às aplicações (ou serviços) em qualquer ponto do mundo, desde que tenha acesso a um terminal qualquer.
  • Toda a manutenção de software é feita de forma centralizada, automática e sem intervenção do utlizador, evitando-se por isso toda a complicação de instalação e  manutenção de software, nomeadamente evitando problemas com versões, actualizações, compatibilidades, etc.
  • O armazenamento de dados corporativos é centralizado, permitindo uma administração completa de politicas, segurança, cópias, etc.
  • O controlo de gastos na utilização da tecnologia melhora drásticamente, uma vez que geralmente se paga uma taxa fixa por cada utilizador e serviço contratado, independentemente da necessidade de actualizações, ocorrência de avarias, etc.
  • Baseando-se em infraestruturas centrais, situadas na net, os sistemas locais são mais leves, mais fáceis de manter, planear e implementar.
  • Fica facilitada a gestão da mudança na empresa, uma vez que em muitos casos passa única e exclusivamente pela recontratação de serviços.
  • Os investimentos e custos de instalação e manutenção geralmente associados a serviços informáticos baseados em hosts locais são terceirizados, evitando-se assim a necessidade de instalações especiais, de infraestruturas complexas de energia, comunicações, segurança, armazenamento, etc.
  • Todas as operações informáticas complexas e de elevado risco são terceirizadas, e entregues a equipas fortemente competentes, com grande planeamento e controlo de acções.

A outra face da moeda!

Claro que este novo modelo apresenta também desvantagens. E estas não são de facto poucas! Algumas delas são mesmo uma das razões para a mais lenta aceitação do modelo por parte de muitas empresas. Vejamos então:

  • A infraestrutura central na net é pesada! Não se trata apenas de um conjunto (ainda que enorme) de servidores. De facto trata-se de infraestruturas que servirão milhões de utilizadores, que necessitam de uma potência massiva de computação e à qual é exigido um tempo de resposta adequado, bem como um nivel de serviço pelo menos tão bom como o de soluções locais. As equipas que o servem são complexas, quer na sua administração quer na sua manutenção; os centros de computação serão massivos.
  • As gestão de questões de equilibrio de carga de trabalho (workload), crescimento de necessidades de armazenamento, gestão de segurança pode rápidamente crescer de forma exponencial, aumentando os custos actualmente considerados.
  • Colocam-se questões não resolvidas ainda, quanto à persistência e disponibilidade de dados antigos, acessibilidade e segurança de certos dados históricos, ou de dados de uso e de actividade, segurança de dados, etc.
  • A dependência de politicas externas torna-se, para as corporações, maior e mais impositiva (por exemplo qual a politica de actualização de versões, qual o custo das novas necessidades devidas ao crescimento do negócio, ou qual a possibilidade de soluções especiais ou por medida?).
  • A percepção de que os dados deixam de residir localmente em ambientes controlados, e passam a residir na net, ainda que virtualmente isolados e seguros, é incómoda para muita gente.
  • O facto de os dados (e aplicações) se encontrarem permanentemente “online” pode colocar questões de segurança importantes para muitas empresas e actividades.

As tipologias do serviço cloud

De facto várias destas questões são consideradas no modelo de computação em núvem, permitindo assim estabelecer critérios mais objectivos para as decisões sobre o tipo de computação em núvel a adoptar, um corpo de ética e de relacionamento de negócio, e regulando a actividade e a prestação do serviço. A restrição ou abertura de acesso depende de vários factores como

  • O processo de negócios,
  • O tipo de informação,
  • O tipo de infraestruturas fornecida
  • O nível de visão desejado,
  • O nivel de segurança desejado,
  • O tipo de serviço disponibilizado

É obvia a necessidade de definir politicas de investimento, politicas de acesso (certas organizações não permitem a todos os funcionários o acesso equivalente a toda a informação ou processos), politicas de segurança (certos dados são mais criticos que outros; alguns dados podem ser perdidos em caso de eventualidade, sem qualquer impacto para a organização enquanto outros são absolutamente criticos, etc.), politicas de disponibilidade e nível de serviço (há processos de negócio em que a disponibilidade de informação é absolutamente critica, enquanto noutros apenas marginalmente influência a rentabilidade do negócio), etc. Em tudo isso define-se o serviço fornecido de cloud computing, que pode ser tipificado.

Definem-se, por isso, diferentes tipos de núvens, ou “flavors” que coexistem hoje em dia:

  • Núvem Privada – As nuvens privadas são construídas para um único usuário (uma empresa, por exemplo). Ao contrário de um data center privado (ou virtual), a infraestrutura utilizada pertence ao usuário, e, portanto, ele possui total controle sobre a implementação das aplicações na nuvem. Uma nuvem privada é, em geral, construída sobre um data center privado, sendo um exemplo a nuvem de um banco ou de uma companhia de seguros. Servem o propósito da confidencialidade de dados e podem também servir o propósito de aplicações privadas e costumizadas
  • Nuvens Pública – As nuvens públicas são aquelas que são executadas por terceiros. As aplicações de diversos usuários são comuns e ficam misturadas nos sistemas de armazenamento comuns. Nesta implementação é necessário considerar, mais que em qualquer outra, questões como desempenho, privacidade de acesso e segurança de dados, a existência de aplicações concorrentes sendo executadas na mesma nuvem, e a transparencia tanto para os prestadores de serviços como para os usuários. Um exemplo são os serviços públicos como os da Amazon ou Google.
  • Nuvem de Comunidade – A infraestrutura de nuvem é compartilhada por várias organizações ou entidades que constituem uma comunidade específica que partilha as mesmas preocupações (por exemplo, a missão, os requisitos de segurança, política e considerações sobre o cumprimento). Pode ser administrado por organizações ou por um terceiro e pode existir localmente ou remotamente. É o caso frequente de uma nuvem associada a um conglomerado de empresas ou a um projecto de desenvolvimento, participado por várias entidades.
  • Nuvem Híbrida – Nas nuvens híbridas há a confluência dos modelos de nuvens públicas e privadas. Este tipo de nuvens unem recursos privados com recursos públicos, como por exemplo aplicações comuns à rede pública ou sistemas de armazenamento que usam recursos de uma rede pública. Essa característica possui a vantagem de manter os níveis de serviço mesmo que haja variações rápidas ou súbitas na necessidade dos recursos. A ligação entre as nuvens pública e privada pode ser usada até mesmo em tarefas periódicas que são mais comummente implementadas nas nuvens públicas, por exemplo, implementando sob a forma privada apenas outros processos mais específicos. O termo computação em ondas é frequentemente utilizado quando se refere às nuvens híbridas, apesar de que nem sempre traduz a ideia genuina do que está a ser feito. É exemplo o caso de uma organização que mantém aplicações próprias e muito específicas do seu negócio, a par do uso de aplicações genéricas como o processamento de texto ou de mail.

Além destas tipologias, é de considerar também que tipo de recurso é forncido pela rede. Parece agora claro que não é apenas o software ou a infraestrutura que pode ser considerada partilhada pela rede. Várias outras componentes podem de facto ser partilhadas, individualmente ou em composição de várias delas. Tipificam-se portanto:

  • Software as a service (SaaS) - Neste caso as aplicações existem na rede (e eventualmente também o armazenamento de dados associados) sendo mantidas por uma entidade que se responsbiliza pela sua disponibilização, manutenção e actualização, independentemente de quem a usa. Neste caso há aplicações específicas que são disponibilizadas via net e que são acessiveis a quem necessita dessa aplicação. O Google Mail ou o Google Docs são exemplos deste tipo de computação em rede. Mas o serviço pode estender-se a aplicações de todo o tipo e complexidade, mesmo as menos genéricas, dedicadas a uma dada actividade económica ou técnica. São hoje comuns as aplicações ERP, CRM, SCM, B2B disponibilizadas no modelo SaaS.
  • Platform-as-a-Service (PaaS) – Neste caso a nuvem disponibiliza um conjunto de serviços de mais baixo nivel que pode incluir servidores de alojamento, logistica de manutenção, controlo de acessos, segurança, etc, e é o caso mais amplamente aceite e usado e inclui, por exemplo, o alojamento de bases de dados, servidores web, etc. Neste caso uma aplicação é desenvolvida e é carregada para o prestador de serviços que se encarrega de proporcionar a plataforma para a sua execução, a sua escalabilidade, acessibilidade e segurança. Microsoft Windows Azure e o Google App Engine são exemplos de PaaS.
    Infrastructure-as-a-Service (IaaS) – É constituida pelo fornecimento de servidores  e armazenamento (virtuais), ou infraestruturas de rede, que cada organização usa como entende, com recurso às suas próprias aplicações que aí são alojadas ou aos dados que aí são armazenados segundo os seus próprios formatos e critérios. As infraestruturas fornecidas podem ir deesde servidores fisicos ou virtuais, a redes de àrea local, redes IP, firewalls, ou o uso da rede como “carrier” para outras redes (usando VOIP, por exemplo) ou para VPN´s. É talvez o mais poderoso tipo de nuvem, mais fácilmente aceite pelas organizações preocupadas com a privacidade, apesar de que é também, possivelmente, a mais dificil de gerir e fornecer. O serviço Amazon’s Elastic Compute Cloud (EC2) e o Simple Storage Service (S3) são exemplos de IaaS. Na prática os fornecedores deste tipo de nuvem proporcionam outro tipo de serviços, pelo que a fronteira entre IaaS e PaaS é algo ténue e indefinida. Na prática o serviço fornecido é o de uma máquina virtual sobre a qual a organização pode instalar o seu próprio sistema e aplicações, usando os recursos de armazenamento que virtualmente lhe associe, sem que o fornecedor tenha qualquer conhecimento de quais os sistemas ou as aplicações que aí rodam. É função do fornecedor manter o nivel de serviço e a escalabilidade do sistema virtual fornecido.

Mudar para “The Cloud”?

Uma das vantagens da computação em núvem é que pode ser experimentada com custos muito reduzidos e controlados!!! Portanto… se pensa usar… experimente! Comece por apenas um serviço, concreto e específico, e avalie; poderá depois planear a migração de  outros.

Os analistas indicam que será a tendência futura. A lógica também. No mundo real o conceito é já largamente usado. Nas grandes redes de comunicações, por exemplo, muitos operadores recorrem a carriers do serviço (ou seja usam redes de terceiros).

Mas grande quantidade de organizações começam a usar a cloud computing numa visão de “caixa de areia”: vamos experimentar, por custos tão baixos como 20€ por mês. Conforme vão ganhando confiança e entendendo as vantagens e limitações vão então migrando as aplicações mais criticas e de maior risco.

Este é o processo mais comum e mais recomendado de migração. Se tem dúvidas, não use outro.

Um livro sobre Cloud Computing

Para saber mais

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